Urologia Pediátrica

Meu amigo imaginário

Até os 5 anos, é natural que crianças criem um companheiro ou atribuam vida a objetos inanimados. Pais podem aproveitar para saber mais sobre o filho

Se seu filho aparecer com um amiguinho que o acompanha para todo lado, tanto nas brincadeiras como em momentos tristes e às vezes até é apontado como o culpado pelas traquinagens, não estranhe. Três a cada dez crianças com idade entre 2 a 5 anos passam pela fase do amigo imaginário. De acordo com os psicólogos, na maioria dos casos não há motivo para preocupação. A criação de um amigo imaginário faz parte do desenvolvimento da criança e deve ser encarada com naturalidade. No entanto, é preciso ficar atento à mensagem que ele quer passar. O companheiro pode revelar muito sobre a própria criança.

Entre os 2 e 5 anos, os pequenos ainda estão com o cérebro em desenvolvimento e, portanto, não são totalmente capazes de diferenciar o real do imaginário. Por causa disso, é natural que criem personagens ou atribuam vida a objetos inanimados. Seja qual for a categoria do companheiro, ele tem a função de fazer companhia, entreter e estar presente em situações do dia a dia da criança.

Em muitos casos, o amigo imaginário surge em momentos chave na vida da criança. Quando ela precisa se adaptar a mudanças ou situações que de certa forma lhe causam algum tipo de insegurança: dormir sozinha, deixar as fraldas, ir para a escolinha ou até mesmo situações mais sérias como a separação dos pais, morte de alguém da família ou o nascimento de um novo irmão. Por isso, é importante que os pais estejam atentos à mensagem que o amigo pode passar. “É preciso entender o que o amigo representa para a criança, o que ela conversa com ele, em que situações ele aparece. Sendo uma representação construída pela criança ele revela muito sobre ela própria”, afirma a chefe do serviço de Psico¬logia do Hospital Pequeno Prín¬cipe, Daniela Carla Prestes.

Ao compartilharem segredos, angústias, frustrações e medos, os amigos imaginários acabam servindo como um exercício para que a criança aprenda a elaborar seus próprios sentimentos e simule reações que mais tarde vão ser enfrentadas com amigos reais.

A professora Daniella Nery se acostumou a conviver com personagens de quadrinhos ou com o palhaço que acompanha o filho Cauã, de 3 anos, em algumas brincadeiras. “Ele é bastante lúdico, gosta de histórias e adora circo, acho que por isso ele cria esses personagens”, conta a mãe, que já pegou o filho falando “sozinho”. “Às vezes ele quer que a gente veja os personagens também ou tenta fugir de alguma bronca dizendo que não foi ele que aprontou, mas sim o amigo”, diz. Nessas situações, a mãe age com naturalidade. “Não incentivo, mas também não reprimo”, diz.

De acordo com os especialistas, essa é a atitude correta. Os pais não devem censurar a criança, e podem usar o amigo como uma forma de conhecer melhor o próprio filho. Com o amadurecimento, a própria criança perde a necessidade dessas fantasias. Segundo o especialista em psiquiatria em crianças e adolescentes e professor do Instituto de Psicologia da USP, Francisco Assumpção Jr, aos 2 ou 3 anos a criança ainda não tem a capacidade de pensamento e raciocínio para testar hipóteses. Somente aos 6 ou 7 anos ela é capaz de checar a realidade e tirar suas próprias conclusões. “Nessa idade ela já separa bem o faz de conta da vida real e o amigo imaginário é naturalmente deixado de lado, substituído pelos amigos reais. É a mesma situação do Papai Noel, uma criança mais nova acredita na existência dele e se convence disso, à medida em que vai crescendo ela começa a desconfiar e a desenvolver métodos para testar se aquilo realmente existe”, explica. Os pais precisam ficar atentos, no entanto, se a criança estender esse comportamento quando mais velha, principalmente se a existência do amigo imaginário prejudicar as relações da criança com a família ou os amigos reais. Nesses casos, é importante conversar com um especialista.


Fonte: http://abp.org.br/portal/clippingsis/exibClipping/?clipping=11384